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terça-feira, 1 de março de 2011

Notas sobre as contas semestrais

Algumas notas sobre o relatório e contas do primeiro semestre 2010/2011 da actividade da SAD do Benfica:
  • Aumento das quotizações mesmo com a equipa de futebol numa forma terrível no início do campeonato, e mesmo num cenário de grande crise como se vive no país;
  • Expressiva diminuição das receitas de bilheteira;
  • Aumento dos proveitos com os Redpass;
  • Aumento de 3 milhões de € da massa salarial, em relação ao mesmo período da época 2009/2010;
  • Explosão dos custos financeiros, que quase triplicaram. Um aumento explicado quase por inteiro pelo aumento das dívidas e pelo aumento das taxas de juro praticadas;
  • Benfica comprou por 2,5M€ a opção de compra para poder ficar com Salvio. Caso não a accione, essa opção converte automaticamente em 20% do passe, que ficará então na posse do Benfica;
  • Até agora o Benfica regista um proveito de 26,25M€ com a transferência de Di Maria. Faltam realizar 9,75M€ dos 11M€ variáveis previstos.
Quanto a considerações, o lucro marginal registado num exercício em que foi registada a venda de Ramires, Makukula e Halliche, deixa-me tudo menos descansado. Os encargos salariais estão a aumentar bastante na mesma, quando era forçoso que até diminuíssem! Isto tem de ser feito cortado com o número ridículo de jogadores sob contrato e que não são aproveitados, alguns com salários chorudos. Pode até ser conseguida uma redução da massa salarial aumentando ao mesmo tempo o tecto salarial para promover a manutenção dos principais jogadores.

Foram gastos mais 4,2 milhões em jogadores no mês de Janeiro, o que significa que o despesismo continua, e não há qualquer inversão da política para já. O que é suicidário, visto que os encargos com a crescente dívida estão a asfixiar completamente a performance económica da SAD. No segundo semestre é de prever que esses encargos subam ainda mais, com o aumento recorde das taxas de juro devido à situação financeira que o país atravessa. A redução do passivo exigível tem de ser uma prioridade, e isso só se consegue com uma diminuição no número de contratações, e com vendas criteriosas.

As vendas de jogadores (três titulares do ano passado em meio ano!) serviram apenas para evitar empréstimos de equilíbrio de tesouraria, não serviram ainda minimamente para começar a contrair o passivo. Se não forem tomadas medidas para uma melhor gestão dos activos, tendo em vista a redução da dívida e como consequência a redução dos encargos daí derivados, o Benfica poderá ter no futuro que continuar a vender titulares indiscutíveis sem conseguir escolher o momento para os vender. O que será sem dúvida danoso em termos desportivos.

Muitos motivos de preocupação, que merecem a maior reflexão e uma rápida inversão das políticas de gestão.

sábado, 17 de julho de 2010

Gestão de activos e financiamento

É um assunto incontornável no futebol moderno, porque se transformou num negócio. O dinheiro, como em tudo na vida, tudo condiciona. A transformação do futebol profissional na última década naquilo que é a sua estrutura de negócio foi radicalmente alterada com o advento das sociedades anónimas desportivas, que permitiram na sua fundação o encaixe de dinheiro vivo que foi aceite sem condições já que, a meu ver e num mercado pequeno como o português, as desvantagens são mais que muitas. Mas isso será outro assunto, não tenho como missão neste texto dissecar as virtudes e os defeitos, mas sim assumir o dado adquirido, e analisar a gestão de activos na SAD benfiquista, as suas formas de financiamento... em resumo, o paradigma da sua gestão.


Importa primeiro de tudo fazer uma resenha aquilo que tem sido a política de aquisições e vendas do Benfica na era Luís Filipe Vieira, compreendendo também o período em que exerceu o cargo de director desportivo. Portanto, desde 2001. Até 2008, nota-se claramente que a principal preocupação era preencher o plantel. Sucessivos jogadores já com vínculo ao Benfica foram considerados dispensáveis, e foi preciso encontrar um número suficiente para os substituir. Alguns com qualidade, a maioria pouco mais fez do que preencher vagas no plantel. Por aqui se vê que só com Rui Costa como director desportivo se mudou radicalmente esse paradigma, coincidindo também com uma crescente disponibilização de verbas para atacar segmentos de mercado bem mais altos.


A nível de vendas o Benfica sempre foi muito low profile, mas há que destacar, mais do que vendas de Simão, Miguel ou Manuel Fernandes (todas a saberem a pouco, face ao momento que o mercado atravessava no momento das vendas), o Benfica foi conseguindo até 2007 despachar todos os seus "cancros" com relativa facilidade, realizando até encaixes bastante improváveis, como o comprovam por exemplo os 1,8M€ conseguidos por André Luís. Portanto, conseguia-se sempre pelo menos compensar o custo que se havia tido com os atletas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Hábeis negociações


Continua a saga das negociações frustradas e frustrantes do Benfica nesta pré-época. Depois de algumas semanas em que o critério e a objectividade pareceram ser a nota dominante na acção do Benfica, eis que volta o circo que tão bem conhecemos. Afinal de contas, era uma questão de tempo até o regabofe voltar... Jesus por muitos benefícios que tenha trazido, ainda não consegue estar presente em 100% das decisões.

Por intermédio do excelente blog Geração Benfica, que considero uma fonte muito fidedigna desde há muito tempo, ficámos hoje a saber que os tais valores variáveis da transferência são, como aliás era previsível, um embuste dissimulado. Esperar que o Di Maria, num clube como o Real, jogue 80% dos jogos a titular para receber 5 milhões de Euros, é praticamente o mesmo que dizer que não precisamos desse bónus de 5 milhões. Ou que dizer da meta de marcar 15 golos esta época, quando ele nunca fez isso na sua carreira? É óbvio que os outros 6 milhões também já arderam, a não ser que o Mourinho espete o Di Maria no lugar do Higuain.

Afinal de contas, poder-se-ia esperar outra coisa? Claro que não! Di Maria está vendido por um valor que representa pouco mais de 60% da sua cláusula de rescisão, e é um dos mais cobiçados extremos do mundo, titular da alviceleste. Que mais se pode dizer? Nem eu sei...

James Rodriguez é a mais recente palhaçada. O Benfica esteve na Grécia a negociar Leto há algumas semanas atrás com o exclusivo propósito de inflaccionar uma possível transferência do jogador para o Porto. Não conseguimos, pois o Porto desistiu do negócio. Entretanto o Porto, em apenas três dias, assegura James Rodriguez, que o Benfica estava a tentar contratar há duas semanas. Não se consegue compreender a inaptidão negocial para estas situações, sobretudo depois das transferências de Gaitan e Jara, cuja abordagem benfiquista foi muito elogiada nas pampas. Cabe na cabeça de alguém o Benfica disputar um alvo comum a vários clubes, sem se fazer representar ao mais alto nível? Mandando um argentino qualquer, por acaso até sócio de um empresário que já nos havia desviado Lisandro para o Porto há uns anos atrás? Isto não é amadorismo... é muito pior que isso!

Para terminar, só faltava mesmo apostarmos nos canteranos do Real Madrid. Vou esperar para ver, mas de facto depois de contratarmos um guarda-redes que aos 24 anos tem 40 e tal jogos no currículo por 8,5M€, depois de perdermos Di Maria por apenas 25M€, e depois de perdermos James Rodriguez desta maneira tão escabrosa, não me admirava nada que ainda fôssemos abater o valor do Di Maria com uns canteranos quaisquer do Real Madrid.

Realmente há coisas que tardam em mudar...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Umas notas sobre Di Maria

Agora que está consumado o inevitável, gostava de deixar também eu algumas notas sobre o negócio.


- O Benfica vendeu o melhor jogador do campeonato 2009/10. Mesmo que fosse vendido pela cláusula, não me regozijaria... prefiro jogadores destes, a dinheiro.


- Foi vendido muito abaixo da cláusula... depois de vários episódios similares, mais uma Vieirada de grande gabarito. Havia mesmo necessidade de dizer que era pela cláusula, senhor presidente?


- Incrível como num espaço de horas desde que se soube os contornos deste mau negócio, os indefectíveis para quem a direcção merece mais crédito que o próprio clube se desdobram em posts um pouco por toda a Internet aludindo ao momento que o mercado atravessa, às dificuldades de financiamento, ao facto do Di Maria afinal de contas já não ser assim tão bom... sintomático de muita coisa.


- Até ver, o grande beneficiado deste negócio chama-se Jorge Mendes. Valorizou 250% o activo que comprou por 1M€ há pouco mais de um ano... (10% do passe do Di Maria).


Seria bom que fossem explicados os contornos deste negócio aos sócios, pois não foram os sócios que andaram a insistir na tecla de que Di Maria só saía pela cláusula.

A venda de Di Maria


Antes de mais quero agradecer o convite que me fizeram para escrever no Chama Gloriosa. Já tinha tido vontade de criar um blog, mas entrar na blogosfera no seio de um projecto destes tem sem dúvida muito mais piada!

O meu primeiro post é sobre a venda de Di Maria. Era uma inevitabilidade há muito tempo, todos o sabíamos e a sua continuidade não era mais do que um utópico sonho de quem está em fase de negação da realidade. No entanto, sempre esperei que o Benfica fizesse com Di Maria um negócio de inegável valia, de inquestionável oportunidade. Não foi isso que se verificou, uma vez mais.

Segundo o que foi comunicado à CMVM, o Benfica vendeu ao Real Madrid o Di Maria por 25 milhões de Euros, tendo ainda direito a 5 milhões de Euros adicionais consoante a participação do Di Maria nos jogos do Real e ainda a 6 milhões de Euros em relação à performance desportiva. O exacto critério para se encaixarem esses 11 milhões não é conhecido, e obviamente que tanto o valor fixo como o valor variável são distribuídos nas correctas proporções pelos proprietários até aqui do passe do argentino, a saber: Benfica SAD (70%), SLB Stars Fund (20%) e Gestifute (10%).

Contrariamente ao que um destacado blogger disse, por sinal com lugar na BenficaTV, o Benfica não realizou aqui a maior transferência da história do futebol português. Falta para isso concretizar-se efectivamente o pagamento dos valores variáveis, o que à luz do historial mais recente nesta matéria permite aos adeptos do Benfica duvidar e muito da realidade de tal pagamento. Além do mais, a pressa com que etiquetou esta venda, nestes moldes, de "agradável surpresa", revela em si mesmo o indisfarçável incómodo que mais um mau negócio desta direcção causa nos sócios e adeptos. Só assim se justifica a pressa para tentar influenciar e alienar as consciências de quem o lê, procurando, como aliás é seu hábito, evitar todo e qualquer potencial foco de contestação. É assim o novo Benfica, o Benfica que alberga gente que vende uma imagem de grande seriedade e ponderação, para esconder uma faceta de fanatismo pró-Direcção apenas justificável pela oportunidade que a direcção lhe dá de se promover à custa do clube.

A realidade deste negócio é bem diferente, e devia fazer-nos pensar a todos. Vamos a uns cálculos simples:
  • Dos 25M€ que o Real Madrid paga de imediato, entram na SAD do Benfica 17,5M€, 5M€ no SLB Stars Fund e 2,5M€ na Gestifute
  • Aquando da venda de 20% do passe por 4,4M€ ao SLB Stars Fund, Di Maria ficou implicitamente avaliado em 22M€. Agora o valor pago pelo Real é de 25M€. A valorização foi pequena, até ver.
  • A Gestifute havia comprado 10% por 1M€. Agora recebe 2,5M€. Ou seja, 250% do que havia gasto. Nem todas as partes deste negócio viram o jogador tão mal valorizado, no fim de contas.
  • Continuando com as contas apenas aos 25M€, o Benfica se não tivesse vendido há menos de um ano os 20% ao fundo e os 10% à Gestifute, teria agora encaixado 25M€ por inteiro. Assim encaixou 1M€ + 4,4M€ + 17,5M€. Ou seja, 22,9M€. Por aqui se vê que o adiantamento de receitas que promoveu com essas vendas parciais custaram cerca de 2,1M€... chamemos-lhes os juros deste empréstimo.
Agora fazendo contas à hipotética transferência ser valorizada em 36M€.
  • O Benfica receberia 25,2M€, a somar aos 4,4M€ e 1M€ já vendidos previamente. Ou seja, 30,6M€.
  • Portanto, em menos de um ano e por conta da antecipação de receitas, o Benfica tinha perdido 36M€ - 30,6M€. Ou seja, 5,4M€ em "juros" destes "empréstimos".
Comparando o máximo que se poderá receber (30,6M€), com o que se poderia receber na única negociação que eu considerava razoável (vender pela cláusula, como muito bem vinha sendo advogado pelo excelso sr. presidente) e sem ter havido o instrumento do fundo (que muitos ainda acham que é para dar dinheiro ao Benfica), o Benfica encaixou menos 9,4M€ do que podia ter encaixado. Isto em apenas 10 meses...

É indisfarçável que a pessoa que preside ao Benfica não é uma pessoa de palavra, por muito que estivesse sobretudo a querer fazer bluff negocial. Mas o bluff negocial faz-se à mesa, não se faz aos microfones da comunicação social. Quem pensar o contrário, é facilmente desmentido pelos bons negócios que entraram na história de Luís Filipe Vieira... negócios que nem é preciso agora relembrar, de tão mediáticos que ainda hoje são. Fez questão de dizer que apenas venderia um jogador abaixo da cláusula, e que esse jogador não seria Di Maria.

O que resulta daqui, é que vendemos um internacional argentino com lugar cativo no onze da alviceleste bem abaixo da cláusula, e sem se saber se será realmente palpável o montante variável negociado como acréscimo aos 25M€ já pagos.

Resulta daqui também que a situação financeira é de tal forma saudável, que o Benfica não teve pejo em seguir uma estratégia de financiamento (através do SLB Stars Fund) que pode custar até 5,4M€ em juros ao fim de apenas 10 meses. Quase 1/6 da transferência agora negociada... !

Pior do que termos vendido um activo do valor do Di Maria pelo preço a que foi vendido, são os sinais que mais uma vez acompanham este negócio. Os sócios continuam a ser enganados com areia para os olhos que a direcção gentilmente lança, e a situação financeira é de tal ordem que obriga a SAD a financiamentos muito caros. Não que isso seja mau por si só, mas é certamente muito distante do cenário idílico que ano após ano muita gente tem tentado vender em relação à situação financeira do clube.

Para reflectir.

segunda-feira, 1 de março de 2010

SAD apresenta contas semestrais


A SAD benfiquista informou hoje a CMVM das contas do primeiro semestre da época em curso, e voltou a apresentar avultados prejuízos. Eis um pequeno resumo das informações vitais contidas na informação ao mercado. Entre parêntesis está a comparação com o mesmo período da época 2008/09.

Proveitos Operacionais: 29,2 M€ (mais 3,2M€)
Custos Operacionais: 29,4 M€ (mais 1,9M€)
Amortizações de passes: 12,1 M€ (mais 1,6M€)
Custos Financeiros: 3,2 M€ (mais 0,4M€)
Resultado Líquido: -13,8 M€ (mais 4,6M€)

Os resultados mostram nova degradação dos capitais da sociedade, actualmente positivos em apenas 14,3 M€, já contando com a incorporação da Benfica Estádio, valor a comparar com o capital social de 115 M€, o que permite dizer que a SAD está ainda a cerca de 43 M€ de sair da situação de falência técnica (que se define como o capital próprio abaixo de 50% do valor do capital social).

As contas do exercício, explicadas no relatório, são novamente prejudicadas pela contratação de vários jogadores no mercado de Verão, e pela falta de vendas de jogadores que compensem os avultados investimentos. Ainda assim, Edcarlos foi vendido ao Cruz Azul por 2,1M€ e Sepsi ao Timisoara por 1M€, no que foi sem dúvida uma boa medida de gestão para evitar gastos desnecessários com atletas excendentários. É um política que deve ser reforçada no próximo mercado de transferências, pois as contas da sociedade assim o exigem.

Veremos como será gerida a SAD doravante, mas uma grande mudança do paradigma exige-se, porque operacionalmente até, a SAD está deficitária, pelo que o problema não está a ser exclusivamente a compra de passes sem vendas que lhe equivalham.