A tentativa é, declaradamente e à moda de Sócrates, aproveitar a gravíssima crise portuguesa (e cujas maiores consequências ainda estão para vir) para branquear anos de esbanjamentos incompetentes e desproporcionados. Há anos que muita gente como eu alerta para os perigos da gestão louca que foi feita, e agora que os bancos fecharam (em definitivo?) a torneira, o aperto sente-se em todo o seu esplendor.
Não consigo deixar de pensar que uma tão grande repetição dos avisos sobre a crise em tão pouco tempo, perspectivam uma cagada épica, mesmo tendo em conta a generosa bitola do nosso caro presidente. A necessidade de rapidamente convencer a nação encarnada de que existe um inimigo externo (a crise) que vai obrigar a medidas impopulares para "salvar" o clube, traz certamente água no bico.
O discurso começa aliás a ser parecido com o de 2001. Na altura disseram-nos que a renovação com a Olivedesportos era inevitável pois o Benfica precisava de dinheiro num contexto muito difícil. Ora o contexto muito difícil é o que nos é agora apresentado (pessoalmente para mim não é surpresa, e os muitos textos que já assinei sobre a nossa sustentabilidade financeira não me deixam mentir), e sabendo que existe um contrato de televisão para ser assinado até ao fim desta época desportiva, promete inquietar a nação Benfiquista. Até porque o presidente sabe que só com uma desculpa relacionada com a básica sobrevivência do clube poderá passar incólume à decisão de renovar com o grande sustento da máfia instalada no futebol nacional.
Um rápido olhar para o Relatório e Contas da época passada, permite-nos ver que apesar das receitas tremendas que tivemos (fruto ainda do sucesso da época 2009/10, nomeadamente nas vendas de redpass, e dos prémios da UEFA), fomos altamente deficitários sobretudo devido aos custos financeiros galopantes. Ora eles são resultado sobretudo da espiral de endividamento que começou em 2007, e que nos valeu apenas um título nacional. A crise vem agudizar este facto, sobretudo pela seca das fontes de financiamento e pelos juros mais elevados, mas o facto que sustenta o temporal de que fala o presidente é a sua própria gestão.
Temos esta época importantes contratos de jogadores a merecer atenção. Aimar e Maxi, provavelmente dois dos 3/4 atletas mais importantes dos últimos 5 anos acabam contrato. Maxi ganha muito pouco comparativamente aos colegas, mas para renovar nem me passa pela cabeça que não passe a ser dos mais bem pagos. Aimar é dos mais bem pagos. Será que a direcção os vai deixar cair? Seria muito mais interessante não ter 60 jogadores sob contrato, mas sabemos bem que a austeridade mais simples será deixar cair contratos em fim de validade...
Esta conversa do desinvestimento traz certamente água no bico. Eu já defendo o desinvestimento há vários anos, nunca tive receio de defender essa opção, e sempre disse que não podia ser cega, como por exemplo os nossos rivais da 2ª circular fizeram. Simplesmente tenho é muito medo que os mesmos que não conseguiram captar os devidos sucessos desportivos de um esbanjamento de dinheiro sem precedentes na nossa centenária história, não consigam agora desinvestir com inteligência e critério. Até porque a conversa de perdermos um pouco de competitividade, dita por LFV, me colhe apenas um amarelo sorriso. É que competitividade não tem sido o nosso forte...
Resumindo, o discurso de Vieira está a ser feito de forma a, rapidamente, criar um espaço favorável no seio dos Benfiquistas para que, em ano de eleições, possa provavelmente fazer algumas cagadas épicas. Eu ponho as minhas cartas na renovação com a Olivedesportos e por valores bem abaixo dos pedidos publicamente por Domingos Soares de Oliveira, e se estiver enganado muito humildemente me lerão aqui neste espaço a elogiar o nosso presidente. E muito me surpreenderia que até ao final da época renovássemos com Aimar e Maxi e evitássemos a venda de mais do que um dos habituais titulares.
Assunto a acompanhar.



















































