No país em que estamos, já não estranhamos o conceito de falência ou bancarrota. Já temos algum traquejo a detectar essas situações, de tão rotineiras que são. E o que hoje escrevo tem que ver com a falência da podridão que se instalou no Benfica, que tem consumido o clube e, mais do que isso, tem consumido aquilo que sempre foi o maior activo do clube - os seus sócios!
Parece-me claro, evidente, que reina a confusão no clube e um certo desespero nos seus dirigentes. A paz podre que se instalou no clube, sobretudo após o título de 2009/10 e dos lamentáveis episódios internos que se lhe seguiram (e de que falei aqui bem antes deles saltarem à vista em campo), parece estar condenada, e os sinais já surgem de todos os lados. Será agora uma questão de tempo até toda a podre estrutura do clube cair, e até admito que ainda possa durar mais uns anos. A capacidade de sobrevivência de Luís Filipe Vieira está para lá do explicável mundanamente, pelo que ainda pode demorar até cair.
O primeiro grande problema é que quiseram despedir Jorge Jesus. Sim, apesar das entrevistas com os votos de confiança, boa parte da direcção quis demitir o treinador. Mas como nunca o treinador mostrou vontade de sair, o preço da operação era proibitivo: quase 7M€, e pagos a pronto... porque pagos de outra forma o treinador tem o direito de não aceitar a rescisão. Atarantados, ficaram sem saber o que fazer. Com muitos jogadores incompatibilizados com o treinador, com o treinador tão comprometido com o Benfica como alguns dos dirigentes (ou seja, nada), foi necessário olhar para a revolução no plantel.
Entretanto, no mundo de Luís Filipe Vieira, o tal onde o entreposto de jogadores já acabou conforme prometido e onde não se sabe o que são comissões, já existem 12 jogadores contratados de Janeiro para cá. São já 40 jogadores no plantel principal, onde ironicamente as maiores dúvidas de continuidades estão em jogadores do onze inicial!
Pelo meio, tivemos aquela inenarrável rábula (mas que serviu para enganhar 95% dos benfiquistas que viram!) das explicações na TVI sobre as investigações a transferências dos jogadores, onde Vieira defendeu a sua inocência e transparência pedindo para investigar outros clubes e mostrando um papel da FIFA sobre a transferência, obviamente coisas que nada provam sobre a substância do que está a ser investigado, e que dizem as fontes geralmente bem informadas do nosso sistema judicial que em casos normais já daria para por muita gente dentro.
Depois, há a questão financeira. Nunca a rotura de tesouraria esteve tão perto. Papel comercial, jogadores vendidos à pressa, e a pressão continua... e não vai abrandar nos próximos anos, pois as facturas de anos de despesismo desenfreado (que aliás continua) estão a chegar e não mostram clemência. Tanto que à hora a que escrevo, ainda anda meia SAD a ver como se hão-de arranjar as garantias bancárias para a transferência do Enzo Pérez, cujo prazo de entrega termina... hoje! Se não houver renegociação dos prazos, claro.
Mas há mais dados. A relação de Rui Costa com Vieira nunca foi tão fria. O uso despudorado da imagem do Rui Costa por parte do presidente foi "recompensada" com a subalternização do director desportivo no último ano e meio, e o caso Nuno Gomes abriu uma nova ferida provavelmente insarável. Vários pedidos de demissão aconteceram sem terem seguimento, mas também daqui começam a surgir cada vez mais sinais sobre o fim de linha deste escudo presidencial. Não nos esqueçamos por exemplo que João Gabriel já subiu a administrador da SAD, sem que seja detectada qualquer necessidade actual para ser preenchida por mais um administrador. E relembro que Rui Costa ainda é administrador da SAD. Coincidências? Talvez!
Contrariamente a anos anteriores, e ao ano passado, este ano nem a camisola oficial para a nova época foi ainda apresentada. Este ano, ainda nem os preços dos lugares cativos estão disponíveis. O desespero e desorientação chega até a estas questões. Lugares cativos ao mesmo preço do ano passado serão talvez sinónimo de vendas vergonhosas, e sendo os cativos um importante instrumento de antecipação de receitas para a época, é um luxo a que o Benfica actualmente não se pode dar, até pela pressão na tesouraria já referida. Mas baixar o preço também é algo que estes chupistas normalmente não concebem, e neste momento estão até em dúvida sobre os reais proveitos.
Entretanto, e puxando a história atrás, há 40 jogadores no plantel. E como se vão despachar? Com que custos? Em quanto vão conseguir cortar os custos? E os jogadores que ainda faltam contratar?
A desorientação é enorme, e quando hoje na assembleia-geral se vê um presidente do clube a ter de puxar dos galões da idade para responder a malta nova que, sem ter fortunas acumuladas, conseguiu identificar óbvios e infantis erros de gestão de sua excelência o presidencial e lustroso bigode, penso que tudo está dito.
Cheira a podre, e não é de hoje. Só que agora o fedor é mais intenso. É certo que só em último recurso esta gente de lá sai, e são capazes de prolongar este sofrimento, esta angústia do clube. Agravarão os nossos problemas desportivos, financeiros e de militância. Vão continuar a arrastar o clube para a lama enquanto se protegem de males pessoais que advirão da sua saída do clube. Provavelmente terão de responder pelo que fizeram aqui e noutros locais, e portanto vão até ao fim aproveitar a protecção que o nome do Benfica dá neste país.
Mas tudo o que um dia apodreceu, nunca voltou a ser saudável. E tudo o que um dia apodreceu, alguma vez acabou por cair. Assim será também neste caso. Resta esperar que não tarde muito, porque problemas já o Benfica tem que chegue...